sábado, 9 de junho de 2012


Mas em qual Deus você acredita, no Deus de uma pequena coletânea de passagens bonitas e edificantes (e compatíveis com os nossos atuais valores morais) de uma parte do Novo Testamento, ou na diversidade de deuses das contraditoriamente diversas passagens de todo o livro, ora violentas e impiedosas, ora pacíficas, ora engraçadas, ora bizarramente sexuais, ora isso ora aquilo. Eles, os que temem, devem acreditar nisso tudo, devem acreditar em mais deuses que você, ou acreditam num Deus diferente do seu, numa religião diferente da sua. O seu Deus é diferente do Deus da pessoa que está a 50cm de você. Tentar convencer aos outros de que o Deus deles tem que ser igual ao seu Deus é quase como eu tentar convencer alguém de que o Deus da Bíblia não existe; você diz "libertem-se do temor" e eu digo "libertem-se da religião". Talvez eu até comece a insistir mais (e talvez mostrar) que a religião (ou as infinitas religiões, que mesmo todas adotando o nome de Cristianismo, diferem muito de pessoa pra pessoa, e de grupo social pra grupo social), prestam mais desserviços à sociedade do que bons serviços.
Ou vocês acreditam que precisamos de Deus para sermos capazes de amar, proteger os que amamos, ter piedade, compaixão, transcender, exultar. Olhem pra bem fundo de si mesmas, pensem nas pessoas que amam, e digam se precisam de Deus ou de religião para amar, para entender um pouquinho por que construimos valores morais, como começamos a construi-los (as mulheres talvez sejam até mais capazes disso do que os homens, acho que são). Olhem para seus instintos maternos, protetores, e digam se a "natureza humana" é essencialmente má, como tantos defendem por aí. O que há de maldade, de crueldade, especialmente nesse aspecto, é desvio do padrão, é problema genético, social, psicológico, sei lá (só tenho certeza de que não é obra do capeta).
Talvez precisem de Deus pra outras coisas, pra se sentirem mais seguras, mais confortáveis, especialmente em momentos de grande fragilidade ou vulnerabilidade, e eu compreendo bem isso (eu mesmo me rendo, muito eventualmente, a esse desligamento da realidade; mas em geral me esforço pra me manter de pé sozinho). Mas acho que podíamos nos esforçar pra perceber a religião como aquilo que ela realmente é: mitologia. A mitologia grega um dia também foi religião. Os índios e diversas etnias aborígenes também possuem suas mitologias, que são suas crenças, bastante distintas das nossas, com uma diversidade de deuses. Por que a nossa mitologia é "a verdade" e a deles não?, e a dos gregos não, e as dos diversos povos que viveram em todas as épocas, e tinham deuses e valores muito diferentes dos nossos, não?. Só por que ficou popular? Será que não foi do interesse de algumas instituições, de algumas autoridades e poderes, que ela tenha se tornado, ou se mantido popular? Não defendo uma abolição de nada, porque isso é cruel, violento e acho que até inviável, apenas uma nova visão. Afinal, eu sou ateu para o seu Deus da mesma forma que vocês são atéias para todos os outros deuses extremamente distintos e estranhos das diversas outras crenças que existem e existiram por aqui. Além disso, adoto um pouco a postura do Millor: "O indivíduo só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde" (eu modificaria um pouco para "Só deixo de ser sinceramente ateu quando estou muito fodido de saúde"). Considero minha racionalidade com relação a esses assuntos como um trunfo, mas talvez seja apenas uma vaidade passageira.
Aliás, talvez se adotássemos ou apreciássemos as mitologias dos nossos índios desde bem cedo, teríamos um maior apreço pelos nossos ambientes naturais. Por que a religião que veio da Europa, veio extremamente carregada de um materialismo nocivo: vocês já viram como é descrito o paraíso no Apocalipse. Por mais que vocês queiram acreditar que é uma metáfora, tentem convencer aos outros que é, especialmente a todas as incontáveis pessoas simples que o leram em toda a nossa História. Promessas de riquezas no paraíso, são no fim das contas, uma ode à riqueza, ao materialismo (e eu digo isso, obviamente, como alguém que está bem longe de estar imune a esse materialismo). Essa religião que nos foi imposta tem muito pouco apelo ao valor dos ambientes naturais (pelo menos que eu saiba). O paraíso dos índios talvez seja bem mais interessante...
Além dos valores que já possuímos, que já se consolidaram, que nos permitem viver em sociedade independentemente da religião, precisamos de muitos novos valores, e a religião não pode nos dar esses valores (no máximo podem adotá-los superficialmente pra ficar bem na fita). O conhecimento sobre o ambiente, sobre a sociedade (o outro) e sobre nós mesmo, este sim, pode nos ajudar a consolidar esses novos valores, como o fez pelos que já são senso comum hoje.

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